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Num contexto em que a produção científica continua a crescer em termos de novas descobertas e projetos interessantes, o verdadeiro desafio já não está apenas em gerar conhecimento, mas em garantir que esse conhecimento chega, é compreendido e aplicado pela sociedade.

Foi precisamente esta reflexão que marcou a manhã de hoje na sessão formativa dedicada aos fundamentos da comunicação de ciência, que está a decorrer entre os dias 16 e 18 de abril, na Universidade de Aveiro, reunindo investigadores, comunicadores e jornalistas para discutir como tornar a ciência mais acessível, relevante e acionável.

Transferência de conhecimento : de produção científica a impacto real

A comunicação de ciência assume hoje um papel central naquilo que se designa por transferência de conhecimento, o processo que permite transformar resultados científicos em valor económico, social e cultural.

Este processo manifesta-se em três níveis interligados:

Mais do que publicar artigos, trata-se de traduzir a “ciência” e dar a conhecer o que de melhor se produz em Portugal.

Comunicar ciência: entre rigor, estratégia e acessibilidade

A comunicação de ciência deixou de ser uma atividade periférica para se tornar uma competência importante. Hoje, exige:

Mas este processo levanta um equilíbrio delicado: como comunicar sem “exagerar”?

O risco de transformar comunicação científica em “marketing” foi apontado como um dos principais desafios. A pressão para gerar visibilidade pode levar a exageros, muitas vezes originados nos próprios comunicados de imprensa, que são a base do trabalho jornalístico.

Por isso, reforça-se a necessidade de uma comunicação:

Ciência, media e confiança pública

Os media continuam a ser um canal essencial para levar ciência à sociedade, mas operam num ambiente exigente, marcado por prazos curtos e temas complexos.

Neste contexto, a relação entre cientistas e jornalistas torna-se determinante. A confiança, a disponibilidade para esclarecer dúvidas e a colaboração com equipas de comunicação são fatores-chave para garantir qualidade informativa.

Ao mesmo tempo, sugere-se o envolvimento dos cientistas em espaços públicos, participando em debates e contribuindo para decisões informadas.

Do laboratório para a sociedade e para o mercado

Um dos pontos críticos da transferência de conhecimento é a ligação entre ciência e indústria.

Apesar do potencial de muitos projetos científicos, persistem desafios como:

Aqui, a comunicação surge como ferramenta estratégica: não apenas para divulgar, mas para criar pontes entre investigação e aplicação prática.

A tendência é clara: investigadores, especialmente nas fases iniciais de carreira, estão cada vez mais conscientes de que comunicar bem é essencial para:

Participação pública e novos modelos de ciência

A ciência está também a tornar-se mais participativa. Iniciativas de ciência cidadã demonstram que envolver o público na recolha de dados e na produção de conhecimento pode gerar resultados relevantes, tanto científicos como sociais.

Ao mesmo tempo, dados apresentados na mesa redonda, indicam que, embora a literacia científica tenha evoluído, continua a ser necessário reforçar o envolvimento da sociedade e da indústria nos processos científicos.

A perspetiva de Pedro Russo reforçou esta visão sistémica da comunicação de ciência, destacando que comunicar não é apenas transmitir resultados, mas estruturar a relação entre ciência e sociedade. Ao apresentar diferentes modelos da ciência como corpo de conhecimento, à ciência como processo e à ciência participativa evidenciou que a transferência de conhecimento depende de múltiplos fluxos: entre investigadores, cidadãos, decisores e indústria. Sublinhou ainda a importância da participação pública e da literacia científica, apoiando-se em dados que mostram uma evolução em Portugal, mas também a necessidade de maior envolvimento nos debates e decisões. Num cenário em transformação, alertou para o papel das novas tecnologias, como a inteligência artificial, e para a urgência de uma comunicação mais coordenada, ética e estratégica, capaz de reforçar a confiança e ampliar o impacto da ciência.

Mesa-redonda: comunicar melhor para transferir mais

Na mesa-redonda, diferentes perspetivas convergiram num ponto comum: sem comunicação eficaz, não é tão possível promover a transferência de conhecimento. Teresa Firmino (Público) destacou os desafios do jornalismo científico num contexto de pressão e excesso de informação, alertando para o risco de exagero nos comunicados de imprensa. Marta Daniela Santos (Gabinete de Comunicação da Universidade de Aveiro) reforçou a importância da colaboração entre investigadores e gabinetes de comunicação, baseada em confiança e objetivos claros. Loic Pedras (Atlantic Business School) trouxe a perspetiva da ligação ao tecido empresarial, sublinhando a necessidade de tornar a ciência mais “traduzível” para o mercado, com um bom pitch e estratégias que ajudem a promover o trabalho e o potencial do mesmo. Já Adriano Cerqueira (Podcast 90 segundos de ciência) evidenciou a evolução dos investigadores, cada vez mais conscientes da importância de comunicar para ganhar visibilidade, financiamento e impacto. Em conjunto, ficou clara uma ideia: comunicar ciência não é apenas divulgar, é ativar o conhecimento.

O futuro da ciência passa pela comunicação

Num cenário marcado por tecnologias emergentes como a inteligência artificial e pela multiplicação de plataformas digitais, a forma como a ciência é comunicada está a transformar-se.

Mais do que nunca, será necessário:

A ciência cumpre plenamente o seu papel quando é compreendida, partilhada e aplicada.