Porque é que os parceiros EMS passaram a ser estratégicos?
Nesta edição de Innovation Stories, damos destaque à Exatronic e ao papel estratégico da engenharia e produção eletrónica no desenvolvimento de soluções tecnológicas inovadoras e escaláveis.
Num momento em que a Europa procura reforçar soberania tecnológica, semicondutores, industrialização eletrónica e resiliência da supply chain assumem um papel cada vez mais estratégico para a competitividade industrial.

Entrevista a: Nuno Gomes, Co-Founder & CEO | Exatronic
Podes apresentar brevemente a Exatronic, as áreas/setores e cadeia de valor em que atuam?
R: A Exatronic é uma empresa portuguesa de engenharia e produção eletrónica, fundada em 1995 e sediada em Aveiro. Mais do que um fabricante, somos um parceiro tecnológico que acompanha cada projeto desde a ideia inicial até ao produto final pronto para o mercado.
A nossa cadeia de valor cobre todo o ciclo de vida do produto eletrónico: design e desenvolvimento de hardware e firmware, prototipagem, industrialização, produção PCBA em linhas SMT e THT internas, testes funcionais e gestão integrada de supply chain. Não somos fornecedores de um passo isolado; somos parceiros do processo completo, sem recurso a subcontratação na montagem eletrónica.
Trabalhamos com clientes de setores muito diversos: indústria, saúde, IoT industrial, agricultura de precisão, aeroespacial e telecomunicações. Todos partilham a mesma necessidade: transformar ideias complexas em produtos eletrónicos fiáveis, certificáveis e escaláveis em produção.
Operamos segundo as normas IPC-A-610 e IPC-J-STD-001, com capacidade para produção em IPC Class 2 e Class 3, cumprimos a Diretiva RoHS e somos reconhecidos como PME Inovadora pela COTEC. Participamos ainda em projetos de I&D cofinanciados por fundos nacionais e europeus, o que nos mantém na fronteira do que é tecnicamente possível.
Porque é que escolher um parceiro EMS deixou de ser apenas uma decisão operacional?
R: Durante muito tempo, contratar um EMS foi visto como uma decisão de compras: quem fabrica mais barato, mais depressa e com menos defeitos. Essa visão está desatualizada e as empresas que ainda a mantêm acabam por pagar caro mais tarde.
Hoje, o parceiro EMS é uma extensão da equipa de engenharia do cliente. As decisões tomadas durante o desenvolvimento têm impacto direto nos custos de produção, nos prazos de lançamento e na fiabilidade do produto final. Se o EMS só entra em cena depois do design fechado, já é tarde demais para evitar os erros mais caros.
Há também uma dimensão estratégica clara: a gestão de componentes, a antecipação de disrupções na supply chain e o conhecimento de alternativas qualificadas. Esta capacidade pode ser a diferença entre lançar um produto no momento certo ou ficar parado à espera de um único chip em falta. Um parceiro EMS com visão estratégica ajuda a tomar essas decisões antes de se tornarem problemas. Em suma, escolher bem o parceiro EMS é uma decisão estratégica, e não meramente operacional, com impacto direto na competitividade a médio e longo prazo.
Porque é que muitos produtos eletrónicos falham na transição entre protótipo e produção em escala?
R:Esta é uma das questões que mais nos ocupa e onde vemos mais empresas a perder tempo, dinheiro e oportunidades de mercado.
O problema começa quando o protótipo é desenvolvido sem pensar na produção nem nas exigências regulamentares. Um protótipo funciona numa bancada de laboratório, mas isso não significa que seja produzível de forma eficiente, consistente e económica. Um componente ideal para um protótipo pode ser difícil de soldar automaticamente em linha SMT. Um design elegante pode ser impossível de testar em produção. Uma escolha de materiais que funciona em dez unidades pode tornar-se um pesadelo logístico em dez mil.
A transição para escala falha, na maioria dos casos, pela ausência de DFM aplicado desde cedo. Na Exatronic, esse princípio está integrado na nossa abordagem desde as primeiras fases de desenvolvimento. Não esperamos que o design esteja fechado para identificar problemas; trazemos a perspetiva de produção logo desde o início.
Acresce a questão da documentação técnica. A industrialização exige uma cadeia de documentos rigorosa e completa. Quando essa documentação é incompleta ou inconsistente, os custos de produção disparam. Prevenimos isso com um processo estruturado de revisão antes de qualquer peça entrar em produção.
O que distingue um parceiro EMS que apenas produz de um parceiro que realmente acrescenta valor ao produto e ao processo de industrialização?
R:A distinção é simples em teoria, mas profunda na prática: um parceiro que apenas produz limita-se a executar a partir da informação recebida — é um mero subcontratado. Um parceiro que acrescenta valor questiona, sugere, antecipa e contribui ativamente para a concretização do produto.
Na Exatronic, esse valor acrescentado traduz-se em várias frentes. Na fase de engenharia, realizamos análises de pré-conformidade que reduzem drasticamente o risco de falha na certificação CE — um processo que, se for descoberto tarde, pode atrasar um lançamento em meses. Produzimos também renderizações fotorrealistas do produto antes de qualquer fabrico, permitindo validar o design físico sem o custo de protótipos sucessivos.
Na industrialização, o nosso DFM review não é uma formalidade burocrática, mas uma revisão crítica do design feita com o olhar de quem vai produzir. Identificamos pontos de falha, sugerimos alterações e otimizamos para eficiência de produção e testabilidade. E depois há o fator humano: uma equipa que comunica com clareza, que diz «isto vai ser um problema» antes de o ser e que está alinhada com os objetivos de negócio do cliente — não apenas com as especificações técnicas. É isto que transforma uma relação de fornecimento numa parceria real.
Como tem evoluído o desafio da supply chain e da gestão de componentes no desenvolvimento eletrónico?
R: Os últimos anos foram um verdadeiro teste de stress à supply chain global de componentes eletrónicos. A pandemia, as tensões geopolíticas e a explosão da procura por semicondutores tornaram a gestão de componentes uma competência crítica para qualquer empresa que fabrique eletrónica.
O que mudou de forma estrutural, e que se tornou o novo «normal», é a imprevisibilidade. Não é apenas que os componentes ficam mais caros; é que ficam indisponíveis, com lead times de um ano ou mais, e sem aviso prévio. Isto afeta diretamente a capacidade de cumprir as expectativas dos clientes, de planear a produção e de garantir uma cadência previsível.
Na Exatronic, respondemos a este desafio em várias frentes. Em primeiro lugar, integramos a análise de disponibilidade de componentes logo na fase de design, evitando, sempre que possível, escolhas com risco elevado de escassez. Em segundo lugar, a gestão proativa da supply chain faz parte integrante do nosso serviço: não esperamos que o cliente nos avise de uma rutura; antecipamos e gerimos.
Desenvolvemos ainda competências sólidas em component engineering — a identificação de alternativas qualificadas que permitem substituir componentes sem comprometer a performance, a fiabilidade ou a conformidade do produto. Numa era de volatilidade, essa capacidade vale muito.
Que impacto terá a sustentabilidade no desenvolvimento e produção de eletrónica nos próximos anos?
R: A sustentabilidade deixou de ser uma opção ou um argumento de marketing. É uma realidade regulatória e uma exigência crescente do mercado. Na eletrónica, o seu impacto será profundo e transversal.
Do lado regulatório, as conformidades RoHS e WEEE já são obrigatórias, mas estamos a assistir a um aperto progressivo das exigências ambientais na União Europeia — desde o ecodesign de produtos e a reparabilidade, até à rastreabilidade de materiais ao longo de toda a cadeia. As empresas que não se prepararem cedo enfrentarão barreiras reais de acesso ao mercado, e não apenas pressão ética. Do lado técnico, a sustentabilidade implica repensar o design dos produtos: maior durabilidade, facilidade de reparação e atualização, e redução da dependência de componentes críticos provenientes de fontes de risco ambiental ou geopolítico. Implica também repensar os processos de fabrico, com foco na redução de desperdício, na eficiência energética e na rastreabilidade de resíduos.
Na Exatronic, a conformidade RoHS está totalmente integrada na nossa operação e na seleção de materiais. Mas encaramos a sustentabilidade de forma mais ampla: produtos eletrónicos mais robustos e duráveis são, por definição, mais sustentáveis. Quando ajudamos um cliente a fazer um produto que dura mais e falha menos, estamos a contribuir para um ciclo de vida mais sustentável.
Como imaginam a evolução dos EMS e da eletrónica industrial nos próximos anos?
R: Estamos a viver um momento de convergência tecnológica. O IoT industrial, a inteligência artificial embarcada, os digital twins e a automação inteligente estão a transformar o que se espera de um produto eletrónico e, por consequência, de quem o desenvolve e fabrica. Em paralelo, a «customização em massa» exige crescente flexibilidade nos processos e polivalência nos operadores.
Os EMS que sobreviverão e prosperarão são aqueles que conseguirem acompanhar esta evolução. Não basta produzir placas mais complexas; é preciso contribuir para a conceção de sistemas produtivos mais inteligentes. A fronteira entre engenharia de produto e serviços de fabrico está, claramente, a esbater-se.
Na Exatronic, já trilhamos esse caminho: desenvolvemos sistemas de IoT industrial, trabalhamos com digital twins e participamos em projetos de I&D que nos mantêm na vanguarda do que é tecnicamente possível. Não somos apenas uma fábrica; somos um parceiro de inovação com capacidade de fabrico integrada, o que tem um impacto direto na redução do time-to-market.
Acreditamos também que a proximidade geográfica ganhará peso crescente. O reshoring — a aproximação da produção aos mercados de consumo — é uma realidade europeia em expansão. Portugal, e em particular o ecossistema tecnológico da região de Aveiro, está numa posição privilegiada para capitalizar essa tendência.
O que vos motiva mais enquanto parceiros tecnológicos na área da eletrónica?
R: Honestamente, a recompensa chega no momento em que um produto que ajudámos a desenvolver entra no mercado, funciona e cria valor — tanto para o cliente como para a Exatronic. Há uma satisfação muito concreta em trabalhar com eletrónica: o feedback é imediato. Ou funciona, ou não funciona. Não há ambiguidade. Isto exige rigor, mas também cria uma cultura de responsabilidade e de orgulho no trabalho bem feito, profundamente enraizada nas nossas equipas.
O que mais nos motiva é a variedade e a complexidade dos desafios. Cada projeto é distinto: um dispositivo médico tem requisitos completamente diferentes de um sistema industrial ou de um produto de consumo. Uma placa que comanda uma máquina industrial ou um stack de telecomunicações embarcado num satélite obedecem a processos diferentes, mas em ambos o rigor é inegociável. Essa diversidade mantém-nos a aprender continuamente e a aplicar conhecimento de um setor noutro.
E depois há o impacto. A eletrónica está em todo o lado — nos hospitais, nas fábricas, nas cidades, nas casas. Quando fazemos bem o nosso trabalho, contribuímos para que o mundo funcione melhor. Não é pouca coisa.
Qual é a tua mensagem final?
R: A mensagem é simples: na eletrónica, as decisões mais importantes tomam-se cedo — muito antes de a primeira placa entrar em produção.
A escolha do parceiro certo, a aplicação rigorosa dos princípios de DFM e DFT desde o início, a atenção à supply chain e o cuidado com a documentação técnica determinam se um produto chega ao mercado no tempo certo, com a qualidade certa e a um custo que faz sentido para o negócio.
Na Exatronic, o que oferecemos não é apenas capacidade produtiva. É a experiência acumulada em mais de 30 anos de projetos reais, com a transparência de quem diz o que precisa de ser dito e o compromisso de quem fica ao lado do cliente até o produto estar pronto para o mundo.
Se está a desenvolver um produto eletrónico e procura um parceiro que pense consigo desde o primeiro dia, estamos cá.
Nota final
Consulte mais informação sobre a Exatronic aqui: https://exatronic.pt/
Conclusão
A entrevista com a Exatronic reforça o papel crescente do ecossistema tecnológico nacional no desenvolvimento de soluções eletrónicas avançadas, capazes de responder aos desafios da digitalização industrial, sustentabilidade e inovação tecnológica.
Num contexto europeu cada vez mais focado em semicondutores, resiliência industrial e soberania tecnológica, empresas como a Exatronic demonstram a capacidade instalada existente em Portugal para desenvolver, industrializar e escalar tecnologia com impacto global.