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Do doutoramento à criação de uma empresa de semicondutores em Portugal, passando pelo empreendedorismo tecnológico e pela experiência numa empresa de Silicon Valley, Rui Gomes regressou à Universidade de Aveiro para partilhar as aprendizagens, desafios e oportunidades que marcaram o seu percurso na área dos circuitos integrados de radiofrequência (RFIC).

A sessão, subordinada ao tema “From PhD to Startups to Silicon Valley: An RFIC Engineer’s Perspective”, assinalou a sétima e última conferência do ciclo comemorativo dos 50 anos do Departamento de Física da Universidade de Aveiro, reunindo estudantes, docentes e investigadores para uma reflexão sobre a evolução tecnológica das telecomunicações, a inovação e o futuro da indústria dos semicondutores.

Dos primeiros sistemas de rádio à revolução dos semicondutores

A apresentação começou com uma viagem pela história das comunicações sem fios, desde as experiências pioneiras de Heinrich Hertz e Guglielmo Marconi até aos modernos sistemas de comunicação integrados nos smartphones atuais.

Ao longo desta evolução, Rui Gomes destacou alguns dos momentos mais transformadores da engenharia eletrónica, como o aparecimento dos tubos de vácuo, a invenção do transístor nos Bell Labs e a revolução da tecnologia CMOS, que permitiu integrar funções analógicas, digitais e de radiofrequência em chips cada vez mais compactos, eficientes e poderosos.

Para o engenheiro, o transístor continua a ser uma das invenções mais impactantes da história da humanidade, responsável por transformar profundamente as telecomunicações, a computação e a forma como a sociedade comunica, trabalha e acede à informação.

O doutoramento como laboratório de inovação

Foi neste contexto tecnológico que Rui Gomes desenvolveu o seu doutoramento, focado na investigação de transmissores totalmente digitais (All-Digital Transmitters), uma área que procura explorar as vantagens das tecnologias CMOS para aumentar a eficiência e o desempenho dos sistemas de comunicação sem fios.

Durante este percurso, aprofundou diferentes arquiteturas de amplificadores de potência e trabalhou num dos desafios clássicos da engenharia RF: encontrar o equilíbrio entre eficiência energética e linearidade. Mais do que desenvolver conceitos teóricos, acompanhou todas as etapas do desenvolvimento de um circuito integrado, desde a conceção da arquitetura até à produção, caracterização e validação experimental dos chips.

Uma das mensagens mais marcantes da sua intervenção foi precisamente a importância da persistência. Desenvolver tecnologia de ponta implica lidar com falhas, protótipos que não funcionam à primeira tentativa e sucessivas iterações até alcançar os resultados desejados. Como partilhou, desenhar, fabricar, medir, testar e voltar a melhorar foi uma constante ao longo do seu percurso, transformando o doutoramento numa verdadeira escola de engenharia e resolução de problemas complexos.

Quando a tecnologia encontra o mercado

A passagem pelo mundo das startups trouxe-lhe outra aprendizagem fundamental. Na Azitek, Rui Gomes e a sua equipa desenvolveram inicialmente uma solução avançada de localização indoor para drones autónomos. Do ponto de vista tecnológico, o projeto era inovador e funcional. No entanto, a realidade do mercado revelou-se diferente das expectativas.

Foi desta experiência que nasceu uma das maiores lições da sua carreira: antes de desenvolver uma solução, é essencial compreender se existe um problema real que os clientes pretendem resolver.

Depois de ouvirem potenciais utilizadores e parceiros, a equipa identificou necessidades concretas na área do rastreamento de ativos industriais e logísticos, adaptando a tecnologia a aplicações com impacto real. Para Rui Gomes, esta experiência demonstrou que a inovação não acontece apenas nos laboratórios. A validação junto do mercado deve fazer parte do processo desde o primeiro momento, permitindo alinhar conhecimento tecnológico com necessidades concretas.

Mais do que uma história de empreendedorismo, esta foi uma reflexão sobre a importância de ouvir o mercado, questionar pressupostos e compreender que uma boa tecnologia só gera valor quando resolve um problema real.

Aprender a executar à velocidade do Silicon Valley

O percurso levou-o posteriormente até à Califórnia, onde integrou a Innophase IoT, empresa especializada no desenvolvimento de chips Wi-Fi para aplicações de IoT.

Enquanto Staff RFIC Design Engineer, trabalhou no desenvolvimento de amplificadores de potência digitais, arquitetura de sistemas e caracterização de circuitos integrados de elevada complexidade, contribuindo para tecnologias presentes em mercados altamente competitivos.

Mas uma das aprendizagens mais relevantes surgiu fora do domínio puramente técnico.

Rui Gomes destacou a cultura de trabalho das empresas tecnológicas norte-americanas como uma experiência transformadora. Segundo explicou, o foco está na velocidade de execução, na proatividade e na capacidade de avançar rapidamente, corrigindo erros e aprendendo ao longo do processo. Em vez de procurar a solução perfeita antes de agir, as equipas são incentivadas a experimentar, iterar e melhorar continuamente.

Uma mentalidade que considera particularmente importante para profissionais e organizações que pretendem inovar em setores altamente tecnológicos e em constante evolução.

Construir tecnologia europeia a partir de Portugal

Recentemente, Rui Gomes iniciou uma nova etapa da sua carreira com a criação da Caravel Semiconductor, uma empresa portuguesa dedicada ao design e desenvolvimento de circuitos integrados para aplicações de radiofrequência e comunicações de alta velocidade.

A empresa surge num contexto em que a Europa procura reforçar a sua autonomia tecnológica e a sua capacidade de desenvolvimento na área dos semicondutores, particularmente em setores estratégicos como o espaço, a defesa, as telecomunicações avançadas e as infraestruturas digitais.

A Caravel Semiconductor posiciona-se neste segmento altamente especializado, desenvolvendo propriedade intelectual e soluções de engenharia para clientes que necessitam de circuitos integrados de elevada complexidade e desempenho. Atualmente, a empresa encontra-se envolvida em projetos internacionais relacionados com transmissores RF para comunicações 5G e sistemas de comunicação de ultra alta velocidade para aplicações em centros de dados.

Ao partilhar esta nova fase da sua carreira, Rui Gomes destacou também os desafios inerentes ao setor dos semicondutores, uma indústria caracterizada por elevados níveis de especialização, ferramentas tecnológicas avançadas e ciclos de desenvolvimento exigentes. Ainda assim, acredita que existe espaço para empresas altamente especializadas capazes de competir globalmente através do conhecimento e da inovação.

Portugal pode ter um papel estratégico na indústria dos semicondutores

Uma das reflexões mais interessantes da sessão incidiu sobre o posicionamento de Portugal e da Europa na indústria global dos semicondutores.

Na perspetiva de Rui Gomes, Portugal dispõe de profissionais altamente qualificados, competências técnicas reconhecidas internacionalmente e centros de investigação capazes de gerar conhecimento ao mais alto nível. Neste contexto, considera que o país pode assumir um papel relevante em segmentos especializados da cadeia de valor dos semicondutores, particularmente na área do design de chips, onde o principal fator competitivo é o conhecimento.

Num momento em que a Europa procura reforçar a sua soberania tecnológica e reduzir a dependência de mercados externos, o engenheiro defende que a aposta em nichos de elevada especialização poderá representar uma oportunidade estratégica para empresas e equipas portuguesas contribuírem para uma indústria cada vez mais relevante à escala global.

Os desafios que vão moldar a próxima geração de chips

Na parte final da conferência, Rui Gomes partilhou a sua visão sobre alguns dos desafios que irão moldar o futuro da engenharia RFIC.

Entre os temas abordados estiveram a integração de transmissores digitais de elevada potência, a coexistência de múltiplos sistemas rádio num mesmo dispositivo e a evolução das tecnologias de fabrico de semicondutores.

A Inteligência Artificial foi também um dos temas em destaque. Embora reconheça o potencial destas ferramentas para acelerar processos de desenvolvimento e otimização, considera que ainda existe um caminho significativo a percorrer até que possam substituir o conhecimento especializado necessário ao desenvolvimento de circuitos analógicos e de radiofrequência.

Ainda assim, acredita que estas tecnologias irão desempenhar um papel cada vez mais relevante no apoio ao desenvolvimento de circuitos integrados, permitindo acelerar processos de conceção, otimização e experimentação.

Uma mensagem para a próxima geração de engenheiros

Mais do que uma apresentação técnica, a sessão constituiu um testemunho sobre a importância da curiosidade, da adaptação e da aprendizagem contínua.

Do laboratório de investigação à criação de startups, da experiência em Silicon Valley ao lançamento de uma empresa portuguesa de semicondutores, Rui Gomes mostrou como o conhecimento desenvolvido nas universidades pode transformar-se em inovação com impacto global.

A sua intervenção deixou uma mensagem clara para os estudantes presentes: o sucesso numa carreira tecnológica não depende apenas das competências técnicas, mas também da capacidade de aprender continuamente, adaptar-se à mudança, ouvir o mercado e transformar desafios em oportunidades.

Com esta sessão, o Departamento de Física da Universidade de Aveiro encerrou o ciclo de sete conferências promovidas no âmbito das comemorações dos seus 50 anos, proporcionando à comunidade académica o contacto com percursos inspiradores e diferentes perspetivas sobre o papel da ciência e da tecnologia na construção do futuro.